And if I have to go, will you remember me?
Will you find someone else, while I'm away?
There's nothing for me, in this world full of strangers
It's all someone else's idea
I don't belong here, and you can't go with me
You'll only slow me down
Until I send for you, don't wear your hair that way
If you cannot be true, I'll understand
Tell all the others, you'll hold in your arms
That I said I'd come back for you
I'll leave my jacket to keep you warm
That's all that I can do
And if I have to go, will you remember me?
Will you find someone else, while I'm away?
If I Have to Go (Tom Waits)
31.1.08
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28.1.08
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"- Quando começa a anoitecer há sempre uns momentos muito particulares. De cada vez que observo isto vem-me a mesma lembrança. Ainda era muito pequeno e andava a brincar na floresta a esta hora. A criada tinha-se afastado; eu não sabia, pensava que ela ainda estava perto de mim. De repente, alguma coisa me obrigou a levantar a cabeça, e percebi que estava só. Subitamente, tudo ficou silencioso. E ao olhar à minha volta foi como se as árvores formassem um círculo, em silêncio, e me olhassem. Comecei a chorar; sentia-me tão abandonado pelos adultos, entregue aquelas grandes criaturas sem vida... Que será isto? Voltei a ter muitas vezes a mesma sensação, este silêncio súbito que é como uma língua que não ouvimos..."
As perturbações do pupilo Törless (Robert Musil)
14.1.08
13.1.08
la maison natale
I
Je m’éveillai, c’était la maison natale,
L’écume s’abattait sur le rocher,
Pas un oiseau, le vent seul à ouvrir et fermer la vague,
L’odeur de l’horizon de toutes parts,
Cendre, comme si les collines cachaient un feu
Qui ailleurs consumait un univers.
Je passai dans la véranda, la table était mise,
L’eau frappait les pieds de la table, le buffet.
Il fallait qu’elle entrât pourtant, la sans-visage
Que je savais qui secouait la porte
Du couloir, du côté de l’escalier sombre, mais en vain,
Si haute était déjà l’eau dans la salle.
Je tournais la poignée, qui résistait,
J’entendais presque les rumeurs de l’autre rive,
Ces rires des enfants dans l’herbe haute,
Ces jeux des autres, à jamais les autres, dans leur joie.
Yves Bonnefoy
1.1.08
Resolução de Ano Novo
"A Avó abre os olhos, e eu vejo uma nova luz áspera e gelada: a inteligência, uma energia que de repente recompõe todo o corpo e traz agora o retrato para o centro do tempo, tornando-o movimentado e audaz, completo. Nesse olhar progride agudamente um sorriso que o limpa da velhice e deixa o sal de uma fina malícia. Os lábios mexem-se, parecem brilhar um instante. O corpo renasce do próprio esgotamento. A Avó diz:
- É tudo mentira...
Depois as pálpebras descem e o corpo é absorvido pelo enigma. As paredes alteiam-se, o retrato recua, a minha juventude fica sem armas - fulgurante e estúpida."
Herberto Helder (Os Passos em Volta)
25.12.07
A Estalagem da Razão
A meio caminho entre a fé e a crítica está a estalagem da razão. A razão é a fé no que se pode compreender sem fé; mas é uma fé ainda, porque compreender envolve pressupor que há qualquer coisa compreensível.
Fernando Pessoa (Prosa Íntima e de Autoconhecimento)
12.12.07
30.10.07
Bloguística
Quis saber o que escrevia.
Escrevia a sua vida. A história de um homem que nadara durante três dias no mar, que lutara contra a morte, que perdera o sono e que apesar disso conservara a força de viver.
«Escreve isso para os seus filhos? Como crónica de família?»
Sorriu com amargura: «Para os meus filhos? Isto não lhes interessa. è um livro, o que escrevo. Acho que podia ajudar bastante gente.»
Esta conversa com o motorista de táxi esclareceu-me repentinamente sobre a natureza da actividade do escritor. Escrevemos livros porque os nossos filhos se desinteressam de nós. Dirigimo-nos ao mundo anónimo porque a nossa mulher tapa os ouvidos quando lhe falamos.
Milan Kundera (in O Livro do Riso e do Esquecimento)
Diarística
Estava a pensar noutra coisa: eis a verdadeira e única razão de ser da amizade: fornecer um espelho onde o outro pode contemplar a sua imagem de outrora; e se não fosse o eterno palavreado de recordações entre compinchas, há muito que essa imagem se teria apagado.
(...)
A amizade é indispensável ao homem para o bom funcionamento da sua memória. Lembrar-se do passado, trazê-lo sempre consigo, é talvez a condição necessária para se conservar, como se costuma dizer, a integridade do eu. Para que o eu não encolha, para que mantenha o seu volume, é preciso regar as recordações como as flores de um vaso, e essa rega exige um contacto regular com testemunhas do passado, isto é, com amigos. Eles são o nosso espelho, a nossa memória; não se exige nada deles, apenas que, de vez em quando, puxem o lustro a esse espelho para que nos possamos mirar nele.
Milan Kundera (in A Identidade)
22.10.07
Poema tirado de uma notícia de jornal
João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da [Babilônia num barracão sem
número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.
Manuel Bandeira
18.10.07
9.10.07
Elegia (auto-irónica)
Neste vil mundo que nos coube em sorte
por culpa dos avós e de nós mesmos
tão ocupados em desculpas de salvá-lo,
há uma diferença de revoluções.
Alguns sofrem do estômago, escrevem versos,
outros reúnem-se à semana discutindo
o evangelho da semana; outros agitam-se
na paz da consciência que adquirem
com agitar-se em benefícios e protestos;
outros param com as costas na cadeia,
para que haja protestos. Há também
revoluções, umas a sério, que se acabam
em compromissos, e outras a fingir,
que não acabam nem começam. Mas são raros
os que não morrem de úlcera ou de pancada a mais,
e contra quem agências e computadores
se mobilizam de sabê-los numa selva
tentando que os campónios se revoltem.
Os campónios não se revoltam. E eles
são caçados, fuzilados, retratados
em forma de cadáver semi-nu,
a quem cortam depois cabeça, mãos,
ou dedos só (numa ânsia de castrá-los
mesmo depois de mortos) e o comércio
transforma-os logo num cartaz romântico
para quarto de jovens que ainda sonhem
com rebeldias antes de empregarem-se
no assassinar pontual da sua humanidade
e da dos outros, dia a dia, ao mês,
com seguro social e descontando
para a reforma na velhice idiota.
Ó mundo pulha e pilha que de mortos vive!
Jorge de Sena
29.9.07
Cadeira Atmosférica
O decorador Jean-Michel Frank ofereceu-me um dia duas cadeiras de puro estilo fim do século. Transformei uma delas, substituindo-lhe o assento de pele por uma placa de chocolate. Depois, desequilibrei-a, prolongando um dos pés com um manipulo dourado de estilo Luís XV. Um dos outros pés estava perpetuamente mergulhado num copo de cerveja. Chamei a este objecto desconfortável «Cadeira Atmosférica». Todos os que a viam sentiam um profundo mal-estar. O que significava isso?
Salvador Dalí, in Vida Secreta
Julgo já ter feito isto, algures, com a minha vida sentimental.
19.9.07
17.9.07
Da Verdade (ou epistzen)
A verdade é como um tigre que tivesse muitos cornos,
ou então como uma vaca a que faltasse o rabo.
poema Zen (mudado para português por Herberto Helder)
13.9.07
(fragmento)
como sempre vou perdurando
tecendo com o vento pequenas cumplicidades:
assim se desprende a terra,
assim se acumula cinza sob as lajes,
assim me curvo como essas difíceis árvores
nascidas a destempo nas falésias


